Análise: Quarentena do vazio

26/03/2020
Reprodução/Internet
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Por Fernanda Alves

Hoje vou desabafar minha sensação nesses dias que estou aqui, confinada em casa, devido à pandemia do coronavírus.

Sei da importância da quarentena, estou totalmente de acordo e colaborando ao máximo que posso, saio de casa apenas para jogar o lixo e ir ao supermercado, mas só em saber que tenho que ficar aqui, trancafiada, está começando a me dar uma espécie de 'pânico'.

Mas que tipo de pânico? Não é aquele tenebroso psíquico não, o tal "síndrome do pânico", esse eu já tive e graças à minha Fé em Deus (nada curava, foi Deus mesmo e minha Fé), eu me curei há mais de quinze anos. Eu falo em um pânico diferente, uma sensação de que o mundo está prestes a acabar.

Tudo isso porque é um fato nunca vivido antes. Tenho quarenta e quatro anos, não me lembro, mesmo na minha infância, ter presenciado algo semelhante ter que me isolar para não pegar um vírus que se alastra repentinamente e mata.

Às vezes que faltava na escola por um longo período, era apenas por causa da inflamação na minha garganta e a febre que me derrubava. Já presenciei terremoto na TV, tsunamis, 'guerra', ataques terroristas, coisas tristes, mas de fato o coronavírus veio pra mexer as estruturas - emocional, financeiro, afetivo, já que tenho o costume de visitar meus pais e ver meus irmãos com frequência, a gente tem se falado via vídeo no celular pra matar a saudade. Meu pai é cardíaco, tem pressão alta, está cada dia mais triste por não poder ver os filhos e os netos. Eu, mãe leoa e ligada à família mais que qualquer coisa na minha vida, achei que fosse fácil enfrentar essa quarentena, mas confesso que ela está começando a ficar insustentável.

O que escrevo aqui, que nada mais é que um desabafo, não é para desencorajar ninguém, muito menos ir contra as ordens evidenciadas pelas autoridades sãs. Eu apenas quero que você aí, que também está sentindo essa angústia, esse medo que vem às vezes em nossa mente, já que não sabemos ainda o que está por vir - mesmo que noticiem que é um fato 'passageiro' e necessário, entenda que você não está sozinho.

Tudo o que não podemos dominar (pelo menos eu sou assim), me dá certa angústia, certo pânico, vai ver por isso eu nunca fui viciada em nada na minha vida, sempre tendo tudo muito à minha inteira disposição, como muitos de vocês sabem em relação ao meu trabalho voluntário que fiz por mais de cinco anos com os dependentes químicos.

O que tenho sentido vem pela manhã ao acordar. O peito fica doendo, parecem gases, mas não é, me dá ânsia, a cabeça fica pesada (não, não estou com o coronavírus), os sintomas são de tristeza mesmo, por saber que muitos morreram, que muitos podem morrer, que eu, você, nossos filhos, estamos sujeitos a nos contaminar, desenvolvendo uma espécie de TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo) mediante essa doença. Chega da rua, lava as mãos, passa álcool, usa luvas, usa máscaras, mantenha distância de ao menos um metro... gente, isso pra mim é o apocalipse, sou dessas que bebe água da torneira!!!

Em tempos de liberdade - eu pelo menos sempre fui muito livre, a minha liberdade que me prende a tudo, mas 'à força', eu confesso estar meio perdida, desorientada, sem saber ao certo o rumo que devo seguir.

O que me conforta são as minhas orações diárias, o meu Deus único, saber que meus familiares estão bem e meu filho, aqui ao meu lado (que fica o dia inteiro no celular), mas tudo isso é passageiro...ou não?